A obesidade pode ser definida como uma doença de múltiplos fatores: genéticos, endócrinos, familiares, dietéticos, psicológicos, culturais e sociais. Devido à modernidade e a oferta de alimentos hiper-calóricos, o consumo em excesso desencadeia ou agrava uma série de outras doenças. Além dos grandes riscos a saúde como coração, artérias, fígado, articulações e o sistema endócrino, podem ocasionar problemas estéticos e psicológicos. Hoje é considerada uma doença crônica, grave, com custos elevados para a saúde pública por estar associada a inúmeras comorbidades. Como a obesidade tem uma etiologia multifatorial, seu tratamento envolve vários tipos de abordagem. Entre elas podemos encontrar orientação dietética, programação de atividades físicas, fármacos anti-obesidade, em conjunto com o acompanhamento psicológico e ou psiquiátrico. Entretanto, a obesidade classificada como de grau III (IMC acima de 40kg/m²), encontra resultados insatisfatórios nos tratamentos acima citados.

A avaliação psicológica no período pré-operatório é fundamental no preparo do paciente para a mudança corporal e social, bem como sua relação com o alimento. Os fatores psicológicos podem influenciar negativamente no resultado do processo cirúrgico trazendo prejuízos ao tratamento p/ redução de peso, portanto é necessário diagnosticar e fazer um acompanhamento paralelo para que o fator emocional não cause interferência nos resultados da técnica cirúrgica. Embora a cirurgia dê um limite quantitativo para a comida, é necessário o cuidado com “o quê” o paciente come, e como “se vê” após o emagrecimento, pois a cirurgia exige uma vigilância constante com a equipe para que com o passar dos anos não ocorra o re-ganho de peso.

A avaliação no período pré-operatório tem como objetivos investigar o histórico da obesidade de cada paciente e entender qual a função que o alimento exerce sobre cada um (prazer, ansiedade, depressão…), bem como verificar quais sentimentos se manifestam. Cada indivíduo poderá expressar momentos de raiva, culpa, frustração, sensação de abandono, insegurança (antes ou após a ingestão alimentar).

Muitos pacientes apresentam alterações psicológicas e comportamentais que estão ligadas diretamente à obesidade (comer compulsivamente e distorção da imagem corporal) possibilitando detectar a presença de “Bulimia Nervosa”. Existem aspectos que mostram a possível associação entre BN e obesidade como: obesidade desde a infância; parentes em primeiro grau com obesidade; histórico de transtornos depressivos e ou ansiosos por longos ou repetidos períodos…, e uma vez detectado, é necessário o tratamento da doença.

A psicologia tem como função avaliar a capacidade do paciente de mudar atitudes e hábitos; investigar como ele reage a frustrações, desequilíbrios; esclarecer e desmistificar medos e fantasias com relação à anestesia e cirurgia; explicar que o emagrecimento não ocorre como passe de mágica e que seu comprometimento com o tratamento pós-operatório e com a equipe é fundamental. No processo de avaliação destaca-se a importância do acompanhamento de um familiar, pois acredita-se que uma rede de apoio auxiliando, o paciente terá maior facilidade e tranqüilidade no resultado final.

Estas mudanças vão além de uma nova condição estética, de um novo corpo, agora magro, elas estão diretamente ligadas a percepção de uma nova imagem ou de um novo contorno corporal. Readaptar-se a uma nova imagem, diferente daquela vista através do espelho antes do emagrecimento pode significar a busca de uma imagem ideal imposta pela modernidade. A busca do corpo ideal do paciente obeso, nestes casos, poderia estar em desacordo entre o seu corpo real e o desejável. A busca do corpo magro para o sujeito que tem uma imagem corporal recoberta por uma camada de gordura pode ser muito mais complexo, onde o mesmo encontraria ganhos neste escudo protetor. Desta forma, necessitaria desconstruir os ganhos que a obesidade poderia lhe proporcionar e reconstruir uma nova imagem que viesse de encontro ao seu peso ideal.

Como as mudanças ocorrem rapidamente e em um curto espaço de tempo, considerando-se que o resultado da perda de cerca de 40% da gordura ocorre no período de um ano no pós-operatório, o trabalho da psicologia é necessário e está vinculado através de um acompanhamento terapêutico, com o objetivo de ajudar o paciente a enfrentar as mudanças que surgem após a cirurgia tanto emocional quanto corporal. Neste sentido, o beneficio é maior quando o paciente consegue se comprometer não só as mudanças físicas em relação ao seu corpo, mas também às mudanças psíquicas (auto-imagem, uma nova identidade que vai se estabelecendo aos poucos), resgate da auto-estima, pois mente e corpo são inseparáveis e ajustar estes dois aspectos comporta um tratamento completo. A cabeça precisa acompanhar as mudanças do corpo que a técnica cirúrgica possibilita.

 

Pacientes contra-indicados do ponto de vista emocional:

  • Pacientes alcoolistas;
  • Pacientes com risco de suicídio;
  • Pacientes drogados ou com história importante de uso de drogas;
  • Pacientes psicóticos sem tratamento medicamentoso;
  • Pacientes com história importante de bulimia e sem sintomas de melhora;
  • Pacientes intelectualmente deficientes sem ajuda adequada da família;
  • Pacientes com uma depressão severa sem controle medicamentoso.

 

             No pós-operatório, segundo momento da cirurgia bariátrica, considerado delicado pelos cuidados exigidos, o paciente se sentirá testado em sua capacidade de se manter motivado para aderir às exigências do tratamento, que serão as dietas líquidas e demais restrições alimentares, além da prática da atividade física, que deverão permanecer por toda a sua vida. Será fundamental, nesse momento, a capacidade do paciente bariátrico se vincular à equipe de cirurgia para seguir as orientações sobre cuidados necessários e mudanças alimentares obrigatórias do período, para seu bem estar e adaptação futura.

               Quando já transcorridos alguns meses, o paciente se encontrará adaptado aos novos hábitos alimentares e processando as mudanças emocionais decorrentes. Nunca esquecendo que o mesmo estará constantemente sendo testado, sendo exigidos novos esforços emocionais e comportamentais. As necessárias mudanças no estilo de vida, após a cirurgia, é fator que, quando rejeitado pelo paciente, pode representar problemáticas emocionais antigas e até interferir no eliminar, bem como no manter o peso. A adesão ao tratamento garantirá as condições para o paciente bariátrico manter o controle que sua doença exige. A interação e o diálogo com a equipe multidisciplinar são o maior aliado do tratamento da cirurgia bariátrica.